Por Adilson Santos

Março mal começou e o roteiro já é conhecido. Os gabinetes se agitam, assessores correm para encomendar canetas personalizadas, cartões com frases de efeito e milhares de botões de rosa envoltos em celofane. Nas redes sociais, o brilho dos filtros de Instagram tenta ofuscar a opacidade de gestos vazios. É a temporada oficial do “mimo” político, onde a dignidade feminina é reduzida a um brinde de baixo custo.

É aviltante observar essa corja de políticos — e aqui não escapam nem mesmo certas figuras femininas em cargos de poder — que acredita piamente que um evento regado a café, flores e fotos sorridentes substitui a ausência crônica de políticas públicas efetivas. Enquanto o flash da câmera dispara para gerar conteúdo de engajamento, a realidade do lado de fora do salão nobre é brutal.

Onde estão esses mesmos sorrisos quando a mulher da periferia não encontra vaga na creche para poder trabalhar? Que são assediadas no transporte público? Onde se esconde essa “gentileza” na hora de cobrar o funcionamento 24 horas de uma delegacia especializada ou a ampliação de casas de acolhimento? A verdade nua e crua é que o botão de rosa oferecido hoje é o mesmo que servirá para enfeitar o silêncio de amanhã, quando as agressões continuarem a acontecer sob o olhar complacente de quem finge não ver.

O espetáculo da autopromoção é, no fundo, uma agressão institucional. É vergonhoso ver mandatos serem gastos em festividades de calendário enquanto o cotidiano das mulheres é marcado pela insegurança e pela falta de remédios nos postos. A política feita para o “feed” é uma política morta, que valoriza o acessório e despreza o essencial.

Mulher não é data de folhinha. O dia da mulher não é o 8 de março; são todos os 365 dias do ano. Não precisamos de flores que murcham em dois dias, mas de respeito que se sustente por décadas. Precisamos que a força física do homem se una à sutileza e resiliência da mulher para construir, de fato, novos tempos.

Que os políticos guardem suas canetas e cartões. O que se espera de quem ocupa uma cadeira pública não é um “parabéns” protocolar, mas a coragem de legislar e executar o que realmente importa: vida, segurança e dignidade. Menos brinde, mais política de verdade. O povo, e especialmente as mulheres, já cansou de ser figurante em teatro de oportunista.

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