Por Adilson Santos
A realização da Orquídea Fest em Poá traz à tona, mais uma vez, o brilho, a tradição e a expectativa de um dos momentos mais marcantes do calendário cultural da nossa cidade. No entanto, por trás dos refletores e da passarela do concurso Miss Orquídea, o enredo que se repete nos bastidores carrega um tom amargo e profundamente indigesto. Pelo segundo ano consecutivo, a categoria da Miss Imprensa foi simplesmente varrida da programação.
À primeira vista, para o público leigo, pode parecer apenas a ausência de uma faixa ou de um título secundário. Mas para quem vive o jornalismo regional no chão da fábrica — com a poeira da rua nos sapatos e o compromisso ético de dar voz à comunidade —, essa omissão é um sintoma escancarado de algo muito maior: o desrespeito sistemático à imprensa local.
A escolha da Miss Imprensa nunca foi um mero capricho estético. Trata-se de um gesto histórico de integração, respeito e reconhecimento institucional. Os jornalistas, radialistas e comunicadores que acompanham a cidade 365 dias por ano — cobrindo desde as mazelas dos bairros esquecidos até os eventos de gala — eram chamados a avaliar o carisma, a comunicabilidade e a desenvoltura de quem representaria a imagem pública de Poá. Cortar esse espaço é declarar, em bom som, que a imprensa só serve para reproduzir releases oficiais e aplaudir a gestão de turno.

Essa decisão — fruto da miopia compartilhada entre a empresa contratada para organizar o evento, a Prefeitura e as Secretarias de Comunicação e Cultura — revela um boicote silencioso ao empreendedorismo jornalístico regional. Empreender no jornalismo independente no Alto Tietê é um ato diário de resistência. Manter um veículo vivo, pagando contas e produzindo informação de credibilidade sem se curvar a pressões, exige uma coragem que poucos conhecem. Quando os órgãos públicos e produtoras terceirizadas escanteiam quem produz notícia local, eles tentam apequenar a força de quem fiscaliza e documenta a história da cidade.
Contudo, a reflexão mais incômoda precisa ser feita da porta para dentro da nossa própria categoria. Essa postura de desdém por parte dos organizadores só se perpetua porque falta união entre os colegas de imprensa. Enquanto a categoria continuar fragmentada, aceitando passivamente o papel de mera espectadora nos eventos em que deveria ser protagonista e parceira, seremos tratados como figurantes dispensáveis. O respeito não se pede por favor; constrói-se com postura, firmeza e corporativismo.
A Orquídea Fest pertence ao povo de Poá, e a imprensa é a ponte que conecta essa festa à memória coletiva da nossa gente. Fechar as portas para o olhar e o voto dos comunicadores locais não apaga o nosso trabalho, mas expõe a pequenez de quem prefere o silêncio da concordância ao valor da imprensa livre e respeitada.
Como repórter e editor, enxergo este momento como um divisor de águas para a nossa categoria na cidade. Se desejar fazer algum ajuste no tom ou incluir algum desdobramento específico sobre a cobertura da festa, estou à disposição.
Adilson Santos é jornalista, repórter, fotógrafo, locutor, produtor e apresentador, atuando como editor responsável pelo portal POÁ COM ACENTO (www.poacomacento.com) e proprietário da Rádio Flash Back (www.radiopca.com). Nascido, criado e morador de Poá (SP), consolidou sua trajetória na imprensa ao se tornar fotógrafo de jornal de forma marcante quando presenciou e registrou o primeiro acidente aéreo da TAM no Aeroporto de Congonhas. Diretor da Ângulo Produções, dedica sua carreira à cobertura comunitária, à fiscalização de serviços públicos e ao fortalecimento do jornalismo regional independente no Alto Tietê.
